“Este lugar é como um grande livro.”

Paula Moita transformou a forma como muitas pessoas, sobretudo crianças, vivem a experiência de estar num hospital. Ao branco plano das paredes hospitalares a designer adicionou a cor e o desenho, criando pequenos espaços de fantasia e evasão, onde a alegria está presente para substituir o conceito de doença pelo de saúde. Este é o projecto Dar Cor à Vida, do qual a designer gráfica é mentora e sobre o qual falou ao Cindecor, descortinando também mais alguns segredos sobre o mundo da cor e o Natal.

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1. Qual o papel das cores num ambiente hospitalar?

As vibrações da luz são de extrema importância a nível mental e físico. As cores num ambiente hospitalar têm de ser utilizadas com muito cuidado, porque este é um lugar com uma dinâmica muito própria, frequentado por um número muito grande de pessoas, em condições geralmente vulneráveis, e com faixas etárias muito diversas.

Há aspectos que são essenciais num ambiente hospitalar, como por exemplo: não encher demasiado as paredes, porque isso pode levar os utentes, principalmente as crianças, para uma outra realidade e, neste caso, não é muito benéfico porque é necessário que eles não esqueçam que estão num hospital e que têm uma série de regras a cumprir; não usar cores demasiado agressivas, pois isso cansa as pessoas que estão mais sensíveis – por isso mesmo, nos meus trabalhos, nunca uso cores puras, na sua maioria são cores com uma percentagem de branco. Além dos utentes, existe uma equipa de profissionais que coabitam no mesmo espaço e que precisam de alegria no seu ambiente de trabalho mas também de tranquilidade. A ideia é conseguir esse equilíbrio, transmitindo vitalidade e calma mesmo quando existe caos.

Uma das principais preocupações é a selecção das cores de modo a que o espaço se torne num local que transpareça higiene e conforto. Normalmente, a cor que serve de base é o branco e as ilustrações são pintadas com cores suaves em maior quantidade, como o verde e o azul, devido ao seu efeito calmante e higiénico. Em menor quantidade utiliza-se o amarelo, o laranja e o rosa para que se obtenha um ambiente mais acolhedor e vibrante. Cores escuras são evitadas por duas razões: pelo seu efeitos psicológicos – porque escurecem as áreas que por norma já são lugares com pouca luz natural – e porque um hospital não é pintado com a frequência necessária e tem um grande desgaste das paredes.

2. Onde encontra inspiração para decorar espaços por si só tão carregados de emoções como os hospitais e consultórios médicos?

Inspiro-me nas pessoas de uma forma geral e nas crianças, porque gostava que quando fossem a um hospital não tivessem medo como eu tinha. Um dia uma menina com um grande brilho nos olhos, disse-me quando eu estava a pintar, “este lugar é como um grande livro.”- já é uma visão muito bonita das urgências pediátricas que me deixa muito orgulhosa. Inspira-me também o reconhecimento dos pais das crianças que nos diziam ser muito difícil estar dias e dias ali com os seus filhos, a olhar para paredes brancas e após a nossa intervenção revelam sentir-se de melhor humor. Estes pais partilham connosco como era frio o ambiente de uma Neonatologia e como as nossas ilustrações os tranquilizam. Começámos a ver pais sair dos quartos para mostrarem as ilustrações dos corredores e explorarem as cores com o seus filhos e isso é muito gratificante.

É engraçado chegar a um lugar que me pedem para ilustrar e não ter a menor ideia do que vou fazer, sentar-me lá um pouco e perceber do que sinto falta enquanto utilizadora daquele espaço. É desta forma que as ideias vão surgindo.

Lembro-me de um serviço, por exemplo, em que muitos funcionários referiam sentir incómodo e isolamento pelo peso do chão e das portas cinzentas e a inexistência de janelas para o exterior. Solucionei o problema com uma janela gigante com as cores da natureza lá fora e umas cortinas que faziam sentir uma agradável aragem.

3. Os mais pequenos são quem mais aprecia o mundo das cores. Independentemente de ser menino ou menina, quais são as cores que melhor se adaptam às diferentes etapas de crescimento das crianças?

As cores são elementos que estão de tal forma presentes na nossa vida, que temos tendência para menosprezar a sua importância. As cores influenciam-nos em todos os gestos quotidianos e ajudam-nos a construir a nossa identidade, não só na infância mas em toda a nossa vida. Pessoalmente, gosto de desconstruir aquelas ideias preconcebidas como o azul ser para os meninos e o cor-de-rosa para as meninas. Alternativamente, quando pinto um quarto, proponho usar muitas cores ou fugir para outras como o verde e o violeta. Quando se trata de quartos de bebés convém serem espaços que transmitam tranquilidade. Quando são crianças um pouco mais velhas sugiro falar com elas de forma a que sejam as próprias crianças a mostrarem-me em que tipo de ambiente se sentem bem, de que cores gostam mais, e assim perceber um pouco da sua personalidade para depois poder construir um quarto adaptado à criança e não um quarto idealizado pelos pais. Não vejo a criança inserida numa etapa, até porque rapidamente irá passar para outra, mas tento percebê-la como um elemento único e de que forma a cor a pode ajudar. Isso é valido tanto para crianças como para os adultos. Desde que sejam bem utilizadas, todas as cores são boas.

Na decoração dos quartos temos de ter em conta o efeito que as cores possam causar a nível mental e físico. Posso dar um exemplo: em muitas conversas informais algumas pessoas diziam-me que tinham pintado o quarto dos filhos, ou mesmo o seu, de laranja, porque estava na moda, quando lhes perguntava pouco depois se dormiam bem diziam que de uns tempos para cá não conseguiam descansar da mesma forma. Isso devia-se simplesmente ao facto de ignorarem a importância das vibrações de luz que cada cor nos fornece. O laranja é uma cor que nos transmite energia e vitalidade, receber a influência de uma parede laranja é como beber um café antes de dormir. Para crianças hiperactivas é mesmo desaconselhável. No entanto, é uma excelente cor para usarmos num local de estudo. Estimula-nos o cérebro para estarmos mais concentrados e criativos.

4. E porque estamos a falar de cor e muito perto do Natal, quais as cores que mais associa a esta época?

Essa é uma questão que nunca me tinha colocado. Se pensar de uma forma geral, de senso comum, é claro que seria o verde e o vermelho. Mas pensando em Natal como conceito e numa visão muito própria seria o branco. Vejo o Natal como uma época de reflexão para percebermos onde poderemos melhorar no ano seguinte, quer nos nossos projectos como nos nossos objectivos pessoais. Para mim o Natal é de facto um nascimento, a oportunidade de começar de novo, é um reafirmar de ideias e de objectivos.

5. Como está a pensar decorar a sua casa este Natal?

Ainda não tive muito tempo para pensar nisso até porque estes meses têm sido de bastante trabalho e, até ao fim do ano, estarei muito empenhada num projecto de grande importância no IPO de Lisboa. Porém, tenho a certeza que o que quer que faça vai ficar marcado por três cores pelas quais me apaixonei este Inverno – Azul Belle Époque, Azul Pérsico e Rosa Batôn – para além das minhas cores de sempre e que já caracterizam o meu trabalho – Azul Havai e Verde Hipocampo.

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